O lugar onde Luiz Gonzaga nasceu que quase ninguém conhece

Muitos conhecem o Parque "Aza Branca", em Exu (PE), a última casa do Rei do Baião. Mas poucos sabem onde está o local exato onde ele nasceu, a poucos quilômetros dali. Mesmo local onde nasceu outra grande personalidade da história do Brasil.

Visitar a cidade de Exu, em Pernambuco, na divisa com o Ceará, é respirar Luiz Gonzaga por todos os lados. Cantada em suas músicas e muitas vezes enaltecida pelo Rei do Baião em entrevistas, a pequena Exu é o epicentro histórico e cultural de personalidades únicas na história brasileira.
Os visitantes interessados na história de Gonzaga costumam começar a rota pelo famoso Parque Aza Branca, lugar onde um dos maiores ícones nordestinos escolheu passar seus últimos anos de vida. É ali onde estão: o último casarão do mestre sanfoneiro, concluído na década de 1980; o Museu do Gonzagão, com itens originais (sanfonas, gibões de couro, chapéus, troféus, discos, comendas etc); e o Mausoléu, onde seu corpo foi sepultado, em 1989.
Mas essa grande história tem um começo. Mais precisamente no dia 13 de dezembro de 1912, a alguns quilômetros de onde, hoje, é o Parque Aza Branca. O próprio Gonzaga confirmou: seu nascimento se deu numa casa muito simples, de taipa, na Fazenda Caiçara, no povoado de Araripe. Mas encontrar esse local não é tão fácil quanto poderia ser.
Nessa missão, nos deparamos com o primeiro desafio: a localização não existia no Google Maps (mas, graças a este que vos escreve, isso já foi resolvido!). Porém, usamos como referência o próprio povoado do Araripe. Pelo caminho, numa estrada de terra, encontramos um grupo de vaqueiros que estava de passagem, nas proximidades de onde nasceu outra grande personalidade pernambucana: Bárbara de Alencar (1760-1832), uma das maiores revolucionárias brasileiras que foi a primeira presa política do país. Bárbara é considerada uma heroína da Revolução Pernambucana e da Confederação do Equador. E ainda mais: era avó do escritor cearense José de Alencar (1829-1877).
Embora eles próprios divergissem, um deles nos indicou exatamente o local onde nasceu Luiz Gonzaga e, para a nossa surpresa, o lugar estava a apenas alguns passos da casa onde nasceu Bárbara de Alencar. Mas, de tão simples e pouco sinalizado, passou totalmente despercebido por nós.
Não há sinalização em nenhum ponto das estradas próximas, indicando como chegar ali, naquele que deveria ser ponto de peregrinação de estudiosos, admiradores e entusiastas da cultura. O que identifica o lugar é uma pequena mureta com uma cerca de arame farpado nas laterais. Os pés de juá, os juazeiros, sombreiam a dianteira da porteirinha de ferro que separa a estrada dessa área retangular que abriga um pequeno marco, simples, de concreto, sobre o qual há uma placa igualmente simplória, onde lê-se: "Nasceu neste local Luiz Gonzaga do Nascimento em 13 de dezembro de 1923. 'O REI DO BAIÃO'. Saudade meu remédio é cantar. Exu - PE. Homenagem (de) João Isac - RN". E, na parte da frontal:: "O pernambucano do século".
E onde fica?
Aqui está o mapa do local exato deste marco:
E porque a casa original não existe mais?
Bom, nossas andanças pela região próxima a Exu nos levaram também a conhecer a pessoa que, atualmente, é guardiã de outra casa importante da história de Luiz Gonzaga: aquela para onde ele voltou, em 1946, dezesseis anos depois de fugir de casa. Essa pessoa é dona Amparo, que conheceu pessoalmente o Rei do Baião.
"A gente conviveu com ele. Existia uma amizade. Coisas da minha vida foram marcadas com Gonzaga", comenta ela. Existe até uma reportagem gravada pela extinta TV Manchete, nos anos 1980, que mostra a família de dona Amparo reunida no alpendre de casa, com Luiz Gonzaga (confira aqui).
Ela confirmou que a casa onde nasceu Gonzaga não existe mais porque foi destruída por uma forte chuva, o que motivou a mudança da família para aquele endereço para onde ele retornou, já famoso, de surpresa.
O relato nos leva a crer que a placa que encontramos, o marco erguido numa estrada de terra, pode não ser exatamente onde a casa existia, mas um local muito próximo. E, afinal, quem é/foi João Isac, o admirador que resolveu demarcar ali a indicação do nascedouro de um dos maiores mestres da música brasileira? Esta é uma pergunta difícil de responder pois João Isac não é citado em fontes oficiais, nem sobre quando esse monumento foi erguido.

O fato é que, não fosse por ele, não teríamos qualquer referência atualmente. O local é o retrato de décadas de desinteresse das gestões públicas de Pernambuco em preservar a história de um dos mais ilustres filhos da terra.
Quanto à dona Amparo, ela tem três chaves muito importantes: a da casa onde nasceu Bárbara de Alencar (sim, ela também é guardiã desse imóvel histórico); a da casa dos pais de Luiz Gonzaga (seu Januário e dona Santana), na vila Araripe - cenário da famosa história de sua volta, já famoso; e a da própria casa, que recebeu o sanfoneiro várias vezes.
Até porque Amparo é neta do Coronel Manoel Ayres de Alencar, o homem que cedeu o empréstimo para que a família Gonzaga comprasse a primeira sanfona de Luiz, um passo fundamental para uma trajetória de sucesso que todos nós conhecemos.
"Isso é hora de você chegar em casa, seu corno?"
O povoado do Araripe ainda hoje, no século 21, conserva uma paz e uma beleza que parecem ter resistido ao tempo. O casarão onde vive dona Amparo faz parte de um pedaço muito importante de toda a história de Luiz Gonzaga. A vizinhança inclui essa casinha simples de janelas pequenas, onde viviam Januário e Santana, nos anos 1940.
Certo dia - contava o próprio Rei do Baião - ele resolveu voltar do Rio de Janeiro para surpreender os pais. Ele já estava longe da família havia 16 anos, depois que levou uma surra por afrontar o pai da moça por quem estava apaixonado, Nazinha. O coronel Raimundo avisou à dona Santana que, se ela não tirasse o filho atrevido da região, o fim da história poderia ser trágico. A dor da surra e do coração partido foi tão grande que o menino de 17 anos saiu de casa sem aviso e pegou estrada. Chegou a Fortaleza, capital do Ceará, onde serviu o exército e, depois, muita história aconteceu até ele chegar à então capital federal, onde iniciou a carreira de artista em solo carioca.
Bom, essa volta pra casa se deu quando o sanfoneiro provavelmente tinha 33 anos, já com certa fama nas rádios do país. O menino que saiu a pé se tornou o homem que voltou de carro para aquele lugarejo no meio do sertão nordestino.
De madrugada, desceu do veículo, reconheceu a casa e se aproximou da janela: - Ô de casa!
Ninguém respondeu.
Novamente: - Ô de casa! - ninguém.
Foi quando ele se lembrou de que o povo do sertão, quieto, cabreiro, religioso, só respondia, àquela hora da noite, se alguém usasse uma senha especial que indicava estar ali uma pessoa de boa-fé. E caprichou:
- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Do lado de dentro, uma voz mais branda respondeu: - Para sempre seja Deus louvado.
- Seu Januário?
- Sim, senhor. - Estou vindo do Rio de Janeiro, seu Januário. Trago um recado de um filho do senhor. Mandou até uma 'coisinha' ($$$) pra eu botar na sua mão! Mas quando vier de lá, traga o 'coco d'água' pra eu, que tô morrendo de sede!
De fora, Gonzaga ouviu o barulho do caneco sendo mergulhado na água que enchia o pote de barro: "Tchibum!". Pela fresta da janela, observou o pai acender o candeeiro e caminhar em direção à janela. Preparou-se para surpreender o velho e posicionou o rosto bem próximo.
Quando Januário abriu a janela, enquanto Luiz sentiu de novo o cheiro familiar da infância, seu pai deu de cara com aquele homem desconhecido, no meio da noite.
- Quem é o senhor? - perguntou o sertanejo. - Luiz Gonzaga, seu filho!
Espontâneo, o velho respondeu: "Isso é hora de você chegar em casa, seu corno!"
E anunciando casa a dentro: "Santana, Gonzaga chegou!!!"
Sim, essa casinha continua de pé, bem preservada, na vila do Araripe. Dona Amparo não abre as portas dela para todos, porque, apesar de estar inteira, a casa carece de cuidado e - garante ela - não há mais nada da família Gonzaga dentro, apenas a estrutura.

Ela fica a poucos metros da igreja de São João Batista, onde o pequeno Luiz Gonzaga do Nascimento foi batizado. Esse templo foi construído a mando do Barão de Exu (Guálter Martiniano de Alencar Araripe - 1822-1889), para cumprir uma promessa feita ao santo: se a epidemia de cólera que fez muitas vítimas, no século 19, naquela região entre Pernambuco e Ceará, não atingisse as terras de sua família, uma igreja seria construída.
Volto a dizer: o povoado concentra muitas referências importantes num pedacinho pequeno de chão pernambucano: o casarão do Barão de Exu; a igreja de São João Batista, onde os restos mortais do barão e de sua esposa estão sepultados; o casarão do coronel Ayres; e a casinha que era de Januário e Santana.
Dona Amparo relembra que, em 1968, na ocasião do centenário da igreja, Luiz Gonzaga gravou a música "Meu Araripe" (parceria com João Silva), em homenagem. Nela, cita algumas pessoas importante da região:
Meu Araripe, meu relicário
Eu vim aqui rever meu pé de serra
Beijar a minha terra
Festejar seu centenário
Sejam bem-vindos
Os filhos de Januário
Pro centenário do Araripe festejar
E a nossa festa
Não vai ser de candeia
Já tem luz que alumeia
Que os homem mandou dar
Quero louvar
Os grandes desse lugar
Luiz Pereira, Dona Bárbara de Alencar
E o Barão que não sai da lembrança
Que mandou buscar na França
São João e Baltazar
Cadê Seu Aires, Cadê Madrinha Nenê
Dona e Donana, Nova, Santana e Bahia
Cadê, Seu sete
Sinharinha dos Canário
Pra cantar com Januário
São João com alegria
Ouça "Meu Araripe" aqui:
Os visitantes desavisados precisam saber: a poucos metros dali, na estrada principal, há outra casa que com parte dessa história entre Luiz e seu Januário gravada a tinta, na parede da frente. É fácil pensar que ali é o endereço original dessa passagem, mas não é. Este tal imóvel foi adquirido por Gonzaga posteriormente, para que seus pais morassem num lugar mais confortável e maior.
Bom, tudo isso você só conhece se for até lá, para entender a geografia do Exu e da vila do Araripe. Por isso, vale palmilhar, parar para ouvir as pessoas, conhecer as histórias.
E teve mais?

Sim! Durante nossa visita à casa de dona Amparo, encontramos parte da equipe de produção de um filme (ainda não revelado, em 2026) que será rodado na região. Integrantes da equipe participaram do longa-metragem "Légua Tirana" (2025), que conta a história de Luiz Gonzaga da infância até antes de se tornar um astro da música.
Além disso, vale dizer que só conhecemos dona Amparo porque ela nos viu à distância, visitando a Igreja de São João Batista, e, do alpendre do casarão, nos convidou a sentar e conversar - por um momento, acreditando que éramos da equipe do filme. Obrigado por ler até aqui. Tudo isso é fruto de pesquisa, viagem, tempo dedicado e amor pela cultura brasileira.
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