Chris Isaak: “não havia nada” antes de Elvis Presley


Caramba, essa frase me fisgou. Nada?!
Muitos não o conhecem, mas Chris Isaak é um cantor, compositor e ator norte-estadunidense que recentemente fez 70 anos de idade e, na música, tem um jeitão inspirado no rock ‘n roll dos anos 1950.
Depois de umas quatro décadas de carreira, ele vem finalmente ao Brasil (em novembro de 2026, São Paulo) para mostrar ao público daqui um pouco dessa música que ele carrega em sua estrada. Mas, numa entrevista recente ao g1, o cantor deu uma declaração sobre Elvis Presley que me surpreendeu demais: “antes de Elvis, não havia nada”.
Por um lado, assimilo sua fala com a lógica de que, para grande parte do público branco dos EUA dos anos 1950, possivelmente não havia referências artísticas tão explosivas quanto Elvis, um terremoto que estremeceu os palcos, a indústria fonográfica e o comportamento social da época, reunindo música, juventude, sexualidade e o poder da fama. Presley era um galã de 19 anos, cheio de energia, que arrancava gritos das meninas e inspirava o estilão dos rapazes.
Do outro lado da moeda, há uma importantíssima questão histórica na frase dita por Chris Isaak, porque, SIM, havia muita coisa antes de Elvis. Muita mesmo. Não sou eu, brasileiro nascido nos anos 1980, que estou dizendo isso.
Vamos começar com uma das maiores autoridades em música negra norte-americana: Ray Charles. Em 1994, ele deu uma entrevista à NBC e ouviu uma pergunta específica do jornalista (branco) Bob Costas sobre Elvis Presley: “Quão bom era Elvis?”.
“Rei do quê?”
A pergunta é específica para um artista que foi contemporâneo do outro. Ray nasceu em setembro de 1930; Elvis, em janeiro de 1935. Ray começou a carreira no fim dos anos 1940; Elvis, na metade dos anos 1950.
Resumindo a resposta de R. Charles: o que Presley fazia já era apresentado por muitos artistas negros havia muito tempo. Fazendo uma citação a outra pessoa que o questionou sobre Elvis ser o “rei”, ele teria respondido: “Rei do quê?”.
“Eu acho que Elvis surgiu na hora certa. Era um garoto branco que sabia tocar rock ‘n roll, rhythm and blues ou qualquer outro que [nome] você queira dar. E as garotas se derretiam por ele. Nat [King] Cole se meteu em encrenca, no Alabama, quando as mulheres se derreteram por ele. Foi expulso da cidade. E os negros saem rebolando por aí há séculos. E o que há de incomum nisso? E tudo o que Elvis fazia era copiar isso. E ele fazia o nosso tipo de música. Ele fazia o estilo de Willie Mae Thornton. Isso é música negra”, afirmou.
A resposta não foi implicância com Elvis. Ray sabia o que era ser um músico negro nos Estados Unidos e principalmente o que o racismo é capaz de fazer para apagar um artista. Ele não cita Willie Mae “Big Mama” Thornton à toa. Ela é uma das maiores referências do R&B e exemplo de força feminina e negra na música daquele país.
A prova de que Elvis bebia dessa fonte para fazer sucesso é a música “Hound Dog”. Um dos maiores sucessos de seu repertório, ela foi composta por dois artistas brancos, Jerry Leiber e Mike Stoller. Elvis gravou sua versão em 1956, com dancinha e tudo.
No entanto, foi “Big Mama” Thornton quem lançou a versão original, quatro anos antes, em 1952! Não quero dizer aqui que Elvis simplesmente apertou o botão de “copiar” e surrupiou a música do repertório da uma cantora negra. Mas, do alto da crista da onda, ele pegou “Hound Dog”, que já existia, temperou com sua personalidade, acelerou o andamento e espalhou para um público maior.
Embora pouca gente saiba dessa história, ela comprova que havia, sim, muita coisa antes de Presley estourar.
O rock tem mãe
Se existe uma personagem que deveria aparecer muito mais, quando contamos a história do nascimento do rock 'n' roll, ela é Sister Rosetta Tharpe. Por isso, a frase do Chris Isaak é duplamente falha, na minha opinião. Rosetta já estava fazendo o que o mundo aprenderia a chamar de rock, quando Elvis ainda era uma criança.
A história começa com Rosetta nascendo no estado Arkansas, Sul dos EUA, em 1915, numa das regiões onde o racismo era mais severo, violento e segregador. Vinte anos mais velha que Elvis, ela se tornou cantora e já tocava guitarra elétrica nos anos 1930 e 1940, misturando a força do gospel com o blues, o ritmo e a distorção que é inegavelmente a base do rock ‘n roll.
Em 1945, ela já gravou “Strange Things Happening Every Day”, dela mesma. Você precisa ouvir, se ainda não conhece. É o rock. Nessa época, Elvis tinha apenas 10 anos de idade; Chuck Berry tinha 19; Little Richard e Johnny Cash, 13. Rosetta já estava lá, senhoras e senhores, fazendo coisas incríveis sobre os palcos e dentro dos estúdios.
O rei se achava rei?
Se algum(a) fã de Elvis chegou até esta linha já soltando fumaça, chateado(a) comigo, peço que acalme seu coração. Elvis foi extraordinário. Claro que foi, com toda a sua explosão artística. Era presença de palco, controle de público, voz única, poder de interpretação e, para todos esses ingredientes, criou um personagem só seu, como fez Michael Jackson, Ney Matogrosso e Freddie Mercury. É o topete + costeletas mais famosos do planeta e adjacências.
Agora, uma coisa é sabermos disso. Outra é afirmar, conforme Chris Isaak, que esse personagem surgiu no vazio, como se tudo ali fosse mato.
Certo dia, em Las Vegas, em 1969, Elvis concedia entrevista coletiva quando uma repórter o chamou de “rei do rock ‘n roll”. Ele vestiu a coroa e a manta sobre o próprio ego? Surpreendentemente, a “majestade” reconheceu a firma negra do rock ‘n roll e respondeu que o verdadeiro rei do rock era Fats Domino.
Fats, nascido Antoine Dominique Domino, em 1928, no estado da Luisiana, foi um dos maiores astros da música negra dos EUA. Com 21 anos de idade, em 1949, ele lançou “The Fat Man” (“O homem gordo”), um boogie-woogie ao piano que soa como base para o rock.
Racismo, a parte inevitável da nossa conversa
Essa nossa conversa começou com dois artistas de tempos diferentes: Chris Issak, branco; Ray Charles, negro. Tudo para falar sobre Elvis, branco. Pois a história não pode jamais deixar o assunto do racismo norte-americano de fora.
Na época em que surgiram Ray Charles e Elvis Presley, os Estados Unidos da América viviam uma contradição espantosa. Ao mesmo tempo em que havia uma enorme produção musical negra (blues, gospel, rhythm and blues) que criava a linguagem basilar do rock que veio em seguida, artistas negros não tinham os mesmos “passaportes” dos artistas brancos - até hoje, não têm.
Uma coisa era um artista negro, homem, cantando para mulheres negras em um bar de um gueto. Outra coisa era um artista negro cantando para mulheres brancas, fazendo movimentos considerados sexualmente provocativos, aparecendo na TV e se tornando um ídolo de um país.
Essa é a comparação que Ray Charles fez, ao citar Nat King Cole - que foi expulso de uma cidade ao provocar furor nas moças brancas da plateia (mesmo sem muita dança). Não há nada de engraçado nisso. Cole já era uma estrela com público formado.
Ao fazer movimentos considerados sexualmente provocantes, aparecer na TV e se tornar um ídolo de um país, Elvis Presley tinha outro tratamento: era chamado de sexy, rebelde, jovem e provocador. O perigo de Elvis era pegar milhares de mulheres. O de Cole era ser expulso, agredido ou morto.
Então, como temos interpretado a fala de Chris Isaak, vamos deixar claro um ponto: há uma enorme diferença entre dizer que antes de Elvis não havia nada e dizer que a chegada de Elvis mudou as coisas. Portanto, quando Ray Charles questiona o reinado de Presley, ele também pergunta sobre quem inventou essa coroa (e, por óbvio, não foi herança familiar ou divina).
Vejo alguns críticos fazerem o mesmo questionamento, no Brasil, acerca de Roberto Carlos. Mas este é papo pra outra hora. No caso de Elvis, a coroa veio de muitas mãos: fãs, imprensa, gravadoras, produtores fonográficos, empresários, programas de TV, fotógrafos etc. Uma indústria inteira construída dentro de uma sociedade em que a cor fazia ainda mais diferença.
Naturalmente, não foi uma decisão do próprio “rei do rock” embranquecer a música negra. Isso seria muito simplista de ser concluído. O fenômeno foi maior. Ao reconhecer Fats Domino como o verdadeiro “rei do rock”, Elvis reconheceu que a coroa não era sua, que chegou depois, que absorveu influências, referências. Porém, a indústria da música à época o fez um superstar com a mesma força com que limitou os horizontes de tantos artistas negros que pavimentaram o caminho.
Acontece que Elvis se tornou ELVIS. Essa rede de atores do sistema viraram os holofotes para um jovem branco que não inventou nada do zero, mas tinha o talento de revestir, reinterpretar e criar uma imagem que ninguém mais conseguiu reproduzir - imitar, muitos imitam.
A voz, o corpo, o espírito de palco: são elementos únicos de Elvis, sua assinatura indelével no mundo da música. Tudo isso foi valorizado extraordinariamente e rendeu, além de fama, muito dinheiro.
Não sei para você, mas para mim, hoje, com o olhar do século 21, parece estranho que os mesmos holofotes não tenham sido voltados à figura de Rosetta Tharpe: uma mulher nos anos 1940 com uma guitarra elétrica, compondo, cantando e sendo líder de um grupo. Da mesma forma Willie Mae “Big Mama” Thornton e sua gaita de boca e interpretação incríveis.
Tá, e Chris Isaak está errado?
Se nossa interpretação for literal, sim. Tudo o que você leu até aqui comprova isso: que quando Elvis chegou, não havia um deserto. O cenário era um fervilhar de músicas, discos, shows, gravações e bilheterias.
Mas, também, seria injusto pegar uma frase carinhosa de um artista falando sobre seu ídolo e transformá-la em uma espécie de acusação. Vejo que ele fala mais como um fã e menos como quem desconhece a história da música do próprio país.
De todo modo, história é algo que exige mais cuidado do que paixão. Por isso, Chris, Elvis tem seu reinado garantido e fez algo extraordinário, relevante e globalizou o rock ‘n roll nascido das mentes incríveis de outros artistas anteriores a ele.
Mas, como em todo reinado, há súditos e súditos.
Referências:
LORENTZ, Braulio. Chris Isaak vem ao Brasil pela 1ª vez e exalta Elvis Presley: 'Antes dele, não havia nada'. Portal g1, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2026/10/08/chris-isaak-vem-ao-brasil-pela-1a-vez-e-exalta-elvis-presley-antes-dele-nao-havia-nada.ghtml Acessado em 08/10/2026
Ray Charles - Entrevista com Bob Costas. Canal EP’s Vault 2. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0vDP72531FA. Acessado em 08/10/2026.
MIRANDA, Igor. Por que Elvis Presley não aceitava ser chamado de rei do rock?. Rolling Stone, 2023. Disponível em: https://rollingstone.com.br/musica/por-que-elvis-presley-nao-aceitava-ser-chamado-de-rei-do-rock/ Acessado em: 08/10/2026.
JORGE, Antonio. Fats Domino. O bom gigante que ajudou a inventar o rock. Portal Renascença, 2017. Disponível em: https://rr.pt/noticia/vida/2017/10/26/fats-domino-o-bom-gigante-que-ajudou-a-inventar-o-rock/96822/ Acessado em: 08/10/2026.


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