"Não aceito ser chamado de mestre". A arte de Cláudio Lopes
- Richell Martins

- 16 de jul.
- 3 min de leitura
Juazeiro do Norte faz parte de uma das mais ricas regiões do Ceará, quando o assunto é artesanato. Nas minhas andanças por esse território, o Cariri cearense, visitei o artesão Cláudio Lopes, que produz casas de taipa em miniatura, além de outras construções em escala, tudo com reaproveitamento de materiais recicláveis, sob a marca Reciclart Cariri.
Conheci seu trabalho há alguns anos, quando ele expôs parte de suas peças em um evento de artesanato, em Fortaleza. Fiquei tão impressionado com a qualidade do artesanato de Cláudio que prometi, um dia, visitá-lo em seu ateliê.
Mas antes de cumprir a promessa, ainda deu tempo do artesão voltar à capital cearense para expor em nova edição da feira. Ou seja, eu já estava em dívida com meus planos. Enfim, numas férias pelo Cariri, fiz questão de visitar Cláudio e sua família, em Juazeiro do Norte, a 495 km de Fortaleza.
Sua casa é, atualmente, seu próprio ateliê. Da garagem ao quintal, tudo respira artesanato. Fomos recebidos com a hospitalidade reconfortante que só as cidades de interior têm genuinamente. Márcia, sua esposa, estava colando partes da estrutura de uma casinha de taipa em construção. Conhecemos também os dois filhos do casal: Gabriel e Samuel.
Eu, de ver o esmero e respeitar todo o processo artesanal de Cláudio posto à nossa frente, naturalmente o chamei de “mestre”. “Mestre” para lá, “mestre” para cá. Até que, antes de gravarmos um conteúdo em vídeo, ele fez uma ressalva. “Só não gosto que me chame de mestre, porque eu não me considero um”. Ok, tudo combinado.
O acervo de peças, das menores às maiores, foi disposto na garagem e podemos conhecer tudo o que ele já produziu. Desde as primeiras obras, que contam um pouco da história da fundação de Juazeiro do Norte (anteriormente chamada de Tabuleiro Grande, por conta do local onde foi construída a capela de Nossa Senhora das Dores e, ao redor dela, um pequeno vilarejo com sete casinhas simples), até as peças maiores como a que representa um engenho de cana-de-açúcar, que conta com um sistema de engrenagens movidas a energia elétrica que faz com que os bonecos da maquete se movimentem e pequenas luzes se acendam.
No mesmo estilo, Cláudio produziu uma casa de taipa com detalhes impressionantes: enquanto um homenzinho mói os grãos de milho, a mulher pila os grãos. A maquete é cheia de elementos feitos com muito cuidado: pequenos potes, animaizinhos, banquinhos de madeira, fogão a lenha, carroça e até os lampiões acesos.
Outra peça que nos chamou muito a atenção foi a réplica da casa do poeta Patativa do Assaré, grande expoente da poesia popular do Nordeste. Essa peça tem um elemento especial que costuma encantar os visitantes de exposições. Além de ser um trabalho muito bonito, a estrutura possui um sistema de som embutido que o Cláudio instalou para reproduzir a voz do Patativa declamando seus poemas. Tudo para reviver a sensação que ele mesmo tinha quando mais novo, ao ouvir o poeta dizer seus textos nas rádios AM locais.
É verdadeiramente uma grande oportunidade poder conhecer como tudo acontece, no ateliê do Cláudio Lopes. Tudo começou em 2018, quando ele resolveu produzir essas peças que remetem às casas de taipa, feitas com madeira e barro batido. Dona Márcia, desde então, aprendeu também a produzir as peças e o conhecimento tem sido transmitido aos filhos que se orgulham do ofício dos pais. Afinal, o sustento da família vem todo do artesanato.
“Mestre? Eu não!”
Pois é, Cláudio insiste em não querer ser chamado de mestre. Para ele, o mestre é aquele que transporta para a arte as dores e os sofrimentos vividos na própria pele.
“Mestre é Patativa, é Luiz Gonzaga, o mestre Espedito Seleiro. Eu comecei isso em 2018. Não quero nome de mestre. Fico muito feliz por quem admira o meu trabalho. Eu não me vejo mestre; me vejo mais artesão.”, diz ele.
Ao mesmo tempo, ao ver nele a disposição altruísta de ensinar a outras pessoas a arte que sustenta sua família, atesto ali meu conceito de ‘mestre’, aquele que transmite o conhecimento, a técnica e faz perpetuar sua habilidade como retrato de um povo.
O fato é que nos aproximamos bastante e atamos um bonito laço de amizade.
Como comprar as peças
Bom, tenho certeza de que, chegando até aqui, você também se encantou com o trabalho feito por Cláudio e sua família. Pois o caminho para encomendar suas peças é simples: existe um perfil oficial no Instagram com diversos trabalhos que ele produz. Basta entrar em contato. E tenha paciência. O artesanato é feito com delicadeza, leva tempo - um tempo que, de tão precioso, só pode mesmo é dar em arte.
Clique AQUI para acessar o perfil do Cláudio Lopes (Reciclart) no Instagram.
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