A arte que pode DESAPARECER com as novas gerações
- Richell Martins

- 20 de jul.
- 3 min de leitura
Imagine um tipo de arte milenar que está correndo um grande risco de desaparecer, pela falta de interesse das novas gerações encantadas pelas tecnologias e conteúdos efêmeros da internet. Este é principalmente o artesanato de entalhe em madeira.
Um dos maiores centros de artesanato da região do Cariri cearense, em Juazeiro do Norte, concentra uma grande variedade de peças, frutos do trabalho de vários artesãos que ali produzem arte, diariamente. É o Centro de Cultura Popular Mestre Noza. O nome do lugar é uma homenagem póstuma ao escultor, artesão e xilógrafo Inocêncio Medeiros da Costa (1897 - 1983), o "Noza", nascido no estado vizinho, Pernambuco.
No espaço, encravado entre as lojas do centro de Juazeiro do Norte, há uma sala reservada à biografia e à obra de no mestre Noza. Fora dela, um sem-número de esculturas de todos os tamanho, temas e cores. Uma festa para os sentidos: os olhos admiram os detalhes, o tato percebe as texturas, a audição se preenche do som dos artesãos martelando os formões e lixando as superfícies e olfato assimila o cheiro das madeiras.
Conhecemos o Marquinhos Gomes, artesão que explicou que tudo começa pela escolha da madeira que vai se tornar arte humana. "A gente utiliza a umburana de cambão para talhar devido a ela ser macia". Depois, vem uma fase importante que depende especificamente do clima - já que, no Centro Mestre Noza, esse processo é feito de maneira mais natural. "Com o tempo, ela exposta ao sol e chuva, vai escurecendo". É importante que a madeira chegue ao ponto correto para ser trabalhada pelos artesãos.
Então, ela é transformada em arte sacra, representação de personagens da cultura popular (como bandas de pífanos, figuras dos reizados etc), corações, mãos, bancos, cadeiras, carrancas e muito, muito mais.
"Juazeiro do Norte é uma das cidades do Brasil todo mais ricas em cultura, porque não temos só escultores, como temos grupos de tradições. E a gente está seguindo a tradição dos nossos antepassados", diz Marquinhos.
Mas é justamente essa continuidade que está em risco. As gerações mais novas precisam entrar em cena para manter viva essa arte que é a expressão da cultura popular.
"Antigamente, aqui, tinha mais [tipos de artesanato]: o flandre, o couro. Só que, com o decorrer do tempo, foram falecendo artesãos e não tinha quem desse continuidade. Por isso, aos poucos, está ficando escasso. De vez em quando, a gente tenta incentivar os jovens e repassar o nosso conhecimento, mas eles não têm interesse", completa.

E é verdadeiramente preocupante. De um lado, a necessidade de manter viva uma prática artesanal de séculos; do outro, as gerações que, rodeadas de tecnologias, não se veem trabalhando com artesanato manual.
Portanto, tão importante quanto o incentivo moral é a visita a centros de artesanato como este, para que os artesãos que estão ativos, vivos e mantendo suas famílias por meio dessa arte consigam prosperar. E cada peça adquirida é única, feita a mão, sem outra igual.
Curiosidades:
Mestre Noza esculpiu a primeira imagem de Padre Cícero com o religioso ainda vivo.
Nascido em Taquaritinga do Norte (PE), passou boa parte da vida no Ceará, mas morreu em São Paulo, em 1983.
Noza chegou a expor em Paris, na França, e em vários lugares do Brasil.
O Centro de Cultura Popular Mestre Noza foi inaugurado no dia 31 de janeiro de 1985
📍Centro de Cultura Popular Mestre Noza
R. São Luiz, 96 - Centro, Juazeiro do Norte - CE


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