Músicos da cidade, uni-vos!
- Richell Martins

- há 3 dias
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Não é um chamado a protesto, passeata ou abaixo-assinado. É mais vascular.

Estávamos para entrar na última sessão do último dia do festival Solos Cearenses, em Fortaleza, quando a conversa sobre o sucesso e os desafios da produção prepararam o clima para a percepção mais certeira da diretora, Rosina Popp: os artistas são uma classe que tem tantas queixas e lutas, mas os músicos não frequentam as apresentações dos colegas. Ponto.
Formação de plateia não é fácil. Quando atores [os que agem em um sistema] assumem lugar de espectadores, são voz forte e incentivadora. Essa decisão pessoal que causa efeito coletivo, a prazo, faz criar um clima de apoio e qualificação positiva. Faz todo sentido.
Realmente, as panelinhas isoladas podem fazer pequenas e deliciosas refeições. Mas panelas juntas prepararam a mesa para um banquete diverso e contínuo. Acredito nisso. Comecei minha história na música compondo, em 2003, em parceria com o piauiense Thiago Arcângelo. Mas foi em formato coletivo, em 2010, com os Comparsas da Vivenda, que entrei no circuito de verdade. A coletividade fez a roda dos palcos girar e levou o público a conhecer mais os compositores, músicos e intérpretes da cidade. Nós frequentávamos as apresentações uns dos outros, ajudávamos a divulgar e encontramos um pequeno oásis produtivo, por algum tempo.
Desse movimento, cresceram vários artistas que estão colhendo os frutos. E isso foi exemplo do que, de outras tantas formas possíveis, pode acontecer agora para mudar a realidade que Rosina apontou e que certamente não é uma desvantagem apenas de Fortaleza.
Quer um exemplo que tivemos na mesma noite? Para ver as atrações daquele encerramento de festival local, estava na plateia o Jorge Helder, um músico que é cobiçado, requisitado, procurado e adorado por muitos dos grandes nomes da nossa cultura, de Maria Bethânia (que o chamou de "o baixista mais disputado do Brasil") a Edu Lobo, de Chico Buarque a Zélia Duncan - para falar dos que estão entre nós. O cara foi assistir, ficou até o fim, até o momento reservado para um bate-papo com os artistas, quando boa parte da plateia vai embora. O músico que fica valida a música.
Samuel Rocha, instrumentista dos melhores, fez parte da programação em um dos quatro dias do festival Solos, com um dos seus projetos, o “Murmurando”. E aplaudiu o show dos outros grupos. Recentemente, nos encontramos também para assistir à série de apresentações de lançamento do álbum “A cor do teu olhar”, uma grande homenagem ao mestre Tarcísio Sardinha. É isso. Estar presente e ser plateia.
Lá em cima, no tão sonhado sucesso nacional, uns frequentam os shows dos outros. É mais comum ver isso. Dá clique, dá foto, dá corpo - e olha que a turma já está validada há décadas. Para quem ainda está subindo a escada, essa força é que é importante mesmo e constrói amizade, parceria, cria conexões e fica tudo mais bonito - não menos desafiador.
Por isso, antes do impulso crítico, antes do cercamento de nichos, antes de fechar as panelas, músicos, uni-vos.
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