O homem por trás de "Luar do Sertão"
- Richell Martins

- há 19 horas
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Você precisa conhecer mais esse cara - ainda mais se for do Nordeste.

Quando eu era pequeno, ouvi muito aquela cantiga:
🎵 “Não há, ó gente, ó não…
Luar como esse do sertão…” 🎵
Essa é a música "Luar do Sertão", que foi gravada por tanta gente! Luiz Gonzaga, Maria Bethânia, Chitãozinho & Xororó, Milton Nascimento, Elba Ramalho e por aí vai.
Quando criança, lia nos meus livros de escola que essa música era de um tal Catullo da Paixão Cearense. E achava esse nome diferentíssimo. Imaginava um personagem sertanejo do interior profundo do Nordeste brasileiro, daqueles poetas repentistas, criadores de rimas inventivas, uma espécie de Patativa do Assaré nascido do século 19.
Depois, crescido, soube mais sobre o tal Catullo - e que "Luar do Sertão" é dele em parceria com o grande João Pernambuco. Para começo de história, apesar de ser “da Paixão Cearense”, ele nasceu no Maranhão, em 8 de outubro de 1863. Filho de pai cearense (Amâncio José) e mãe maranhense (Maria Celestina Braga). Não sei de onde eles tiraram inspiração para batizar a criança de Catulo, um nome incomum para qualquer época. Talvez, do poeta romano Caio Valério Catulo (ou Gaius Valerius Catullus) - que viveu há mais de 2.000 anos. Mas isso é um 'talvez' bem grande.
Esse “da Paixão Cearense” não era capricho artístico, que Catullo usava depois de adulto. Era o sobrenome do pai, "da Paixão", que, por ser do Ceará, era chamado de "Cearense".
Imagino que um sujeito chamado Amâncio Paixão não tinha o direito de ser grosseiro com uma formiga!
Bom, o fato é que, ainda criança, Catullo e sua família foram morar no Ceará, em Maranguape, ao lado de Fortaleza. Se você nunca ouviu falar de Maranguape, é a mesma cidade natal do mestre do humor brasileiro, Chico Anysio. Ela é uma cidade encostada numa bela serra com uma boa porção de mata atlântica, cenários lindos e clima agradável.
Essa visão deve, certamente, ter servido de inspiração para os versos de "Luar do Sertão", veja:
"Oh, que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão (...)
Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão
E a gente pega na viola que ponteia
E a canção e a lua cheia a nos nascer do coração (...) Ai, quem me dera se eu morresse lá na serra
Abraçado à minha terra, e dormindo de uma vez
Ser enterrado numa grota pequenina onde à tarde a sururina
Chora a sua viuvez"
Mas aí vem um detalhe que só você eu prestamos atenção: Quando fala em sururina, a música abre as memórias pra homenagear o Maranhão, pois é um pássaro tinamiforme que não é visto pelo Ceará.

Aos 17 anos, Catullo se mudou para a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil nos tempos do império. E foi lá, aos 19, que aprendeu sozinho a tocar violão e circular pelos redutos boêmios. Acabou enfrentando resistência da família e da sociedade, já que tocar violão, àquela época, era coisa de malandro. Mas ele insistiu e se posicionou de vez no campo das artes, escrevendo poesia, teatro e música.
Catullo teve parceiros de peso, como Chiquinha Gonzaga (na música "Não perguntes", por exemplo); Joaquim Callado (em "Flor Amorosa"); e Ernesto Nazareth (que compôs a famosa "Brejeiro", música incrível que posteriormente ganhou letra do Catullo).
De um lado, com a família achando ruim, de outro, com a sociedade aceitando cada vez mais o violão nos salões nobres, Catullo pavimentou um caminho importante para músicos que vieram depois de sua geração.
Morreu aos 82 anos, em 10 de maio de 1943, no Rio.
Bom, aqui não é lugar de biografias inteiras, mas espero que você, se nunca tiver ouvido falar no Catullim, tenha saído daqui com mais conhecimento! Isso, pra mim, é uma das coisas mais bonitas da cultura popular: eternizar o que é nosso, ao transmitir a história de pessoa para pessoa.




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